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Home»Entretenimento»Como o rap abraçou a introspecção e a vulnerabilidade em 2024
Entretenimento

Como o rap abraçou a introspecção e a vulnerabilidade em 2024

dezembro 30, 2024Nenhum comentário1 Visitas

Letras sobre saúde mental, depressão e outros temas não tão comuns no estilo conquistaram as paradas e mudaram a cara do hip hop neste ano. VÍDEO explica tendência. O Rap ficou sensível em 2024?
Quando você imagina um rapper, é possível que você pense em uma pessoa com correntes de ouro, carrões e cara de mal. É uma imagem que o rap cultivou por décadas. Em 2024, porém, algo mudou.
Quando você pensa em rap, ainda imagina correntes de ouro, carrões e muita cara feia? Tudo bem, o clichê ainda tem certo sentido, mas o estilo tem mudado nos últimos anos. Em 2024, o rap parece ter abraçado a introspecção e a vulnerabilidade.
Nos últimos anos, grandes nomes como Kendrick Lamar e Tyler, The Creator já vinham explorando temas como traumas, emoções e processos terapêuticos.
No Brasil, nomes importantes do estilo como Febem e Matuê também adotaram essa tendência, trazendo introspecção para o mainstream.
De gangsta ao vulnerável?
Segundo Nave Beatz, produtor que trabalhou com o rapper BK e venceu o Grammy latino de 2020 com “AmarElo” de Emicida, a ideia de mostrar fraqueza antes era impensável:
“Principalmente no rap que era mais Gangsta em São Paulo e tudo mais, tu não podia demonstrar a fraqueza sabe, eu acho que tinha muito isso rap, tanto antigamente tanto até lá fora também.”
A virada do jogo
O rap nasceu no Bronx, nos Estados Unidos em 1970, como parte da cultura hip hop. No início, era um reflexo das ruas: pobreza, violência e a luta contra a opressão. Nas décadas de 90 e 2000, o “Gangsta rap” dominou, exaltando uma postura durona vista em artistas como N.W.A, Racionais MC’s e 50 Cent.
A partir dos anos 2000, nomes como Kanye West e Kid Cudi desafiaram essa narrativa. Álbuns como “The College Dropout” e “Man On The Moon: The End Of The Day” trouxeram temas como depressão e solidão.
Montagem das capas dos albuns ‘The College Dropout’ de Kanye West e ‘Man On The Moon The End Of Day’ de Kid Cudi
Reprodução / divulgação
Nesse contexto, houve um episódio interessante: uma disputa entre Kanye e 50 Cent em 2007 marcou esse momento de transição.
50 Cent, irritado com as projeções das vendas do álbum ‘Graduation’ de Kanye, disse que se o rapper vendesse mais que ele com o álbum ‘Curtis’, 50 Cent se aposentaria. Kanye venceu nas vendas, provando que havia espaço para um rap mais sensível.
No Brasil, Emicida foi o principal expoente desse estilo com sua mixtape de estreia “Pra Quem Já Mordeu Cachorro por comida, até que Cheguei Longe”. Em 2009, ele abordou temas como amor, vulnerabilidade social e sonhos.
Quando o rap encontra o emo
Em 2016 um fenômeno interessante aconteceu no hip-hop, o trap (aquela vertente mais arrastada do rap) vivia seu momento de ascensão e se fundiu com outro estilo musical, o emo, nascendo o emo Trap.
Xxxtentacion, Lil Peep e Lil Uzi Vert usavam das batidas do trap para falar sobre suas desilusões amorosas, depressão e como tudo isso era canalizado no abuso de drogas.
Neste mesmo período no Brasil, o rapper carioca BK surgiu em uma safra que tinha ainda Djonga e Xamã. Juntos, deram continuidade a esse estilo de fazer rap e abriram caminho para uma nova geração de rappers com vontade de equilibrar intensidade e emoção.
Capa do álbum ‘Abaixo do Radar’ de Febem
Reprodução / divulgação
Febem é o codinome do rapper paulista Felipe Silva, que começou sua carreira em 2010 e lançou em julho deste ano o álbum “Abaixo do Radar”.
O disco aborda temas como a pressão de ser o sustento da família, o lado ruim da fama e a importância da saúde mental. Em entrevista ao g1, Febem comentou sobre esses temas nas músicas:
“Pode ser influência de idade mesmo, tá ligado? A nossa geração tá envelhecendo. Só que às vezes não é nem sobre a cultura em si é sobre vida.”
As consequências da pandemia
Em 2022, Kendrick Lamar lançou o álbum “Mr. Morale & The Big Steppers”. O projeto levou cinco anos para ser concluído e virou marco de um rap mais ligado a traumas pessoais.
“A pandemia foi um catalisador para isso. Muita gente que não fazia terapia começou a fazer, porque estava ficando dodói da cabeça. Eu acho que os artistas dos nossos tempos são os que que contam as histórias” , resume Nave Beatz, produtor de Emicida e D2, ao g1.
Montagem das capas dos álbuns ‘GNX’ de Kendrick Lamar e ‘Chromakopia’ de Tyler, The Creator
Reprodução / divulgação
Tyler, The Creator lançou “Chromakopia” em 2024, seu disco mais pessoal abordando temas mais maduros como o envelhecimento e expectativas sobre a vida, o álbum vendeu cerca de 300 mil cópias na primeira semana.
Um fenômeno parecido aconteceu com Kendrick e o álbum “GNX”. O projeto é uma celebração à cultura do hip-hop da costa oeste. Além disso, o álbum traz temas introspectivos, como síndrome do impostor, depressão e solidão.
Hip hop como terapia
A influência da terapia no rap também existe. A hip hop therapy, método criado em 1996 pelo médico americano Edgar Tyson (1963-2018), usa letras e batidas como ferramenta terapêutica.
A “terapia do hip hop” tem ajudado jovens marginalizados a lidar com traumas e expressar emoções. Para muitos artistas, como Kendrick, ir à terapia foi um divisor de águas e esse processo aparece em letras de músicas como a de “Mr. Morale”.
Capa do álbum ‘Alligator Bites Never Heal’ de Doechii
Reprodução / divulgação
Essa tendência também aparece no trabalho de novíssimos nomes, como Doechii. Sua mixtape “Alligator Bites Never Heal” disputa o Grammy de 2025 de Álbum de Rap e ela é uma das favoritas ao prêmio de Revelação.
Matuê, fenômeno do trap brasileiro, fez do aguardado álbum “333” um disco que vai além da autoafirmação. Há espaço para refletir sobre fama e vida longe da internet.
São exemplos que deixam claro que o rap tem se mostrado mais sensível e mais aberto a temas que expõe seus artistas. Ao que tudo indica, essa transformação veio para ficar.

Fonte: G1 Entretenimento

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